PERSCRUTADOR

12 março, 2006

Equivocado

Estou frustrado. Estou desesperado. As observações dominicais me afirmam que estive totalmente equivocado com a minha competência em interpretação. Antes, pensava ser um exegeta razoável, com discernimento para distinguir o claro do escuro, o verdadeiro do falso, o dito do não dito. Agora vejo que sou mediano, quase pífio. Alguma arruela de meu córtex dever ter se desprendido ao resvalar os olhos em blogs daninhos – só pode ser. Ou então tenho escrito em idiomas extintos, impenetráveis em seu significado. Estas duas conclusões, embora duvidosas, vieram ao meu socorro quando vi certos disparates publicados na blogosfera. Percebi que, ao emitir opiniões, com todas as letras e palavras, listando fundamentos, expondo causas e efeitos, estou falando o diverso do que foi expresso.

Concedo que, em posts anteriores, lancei mão de ironia, mas foi sóbria, comedida, irrisória para obstruir o entendimento fácil da mensagem. A ironia, figura de linguagem abastada de efeito estilístico, tem dessas artimanhas: levam à dubiedade se o redator, com ela, incha os períodos – o que não foi o meu caso. Mas também se obscurecem se o leitor é um mentecapto intelectual. O blogueiro alvo de minha pena parece fazer jus a esta alcunha. Para ele, os dois posts de estréia deste site são elogios incontidos ao seu esmero de redação, são odes que selam de vez a maestria de seu talento, que o coloca no pináculo do mundo “bloguístico”.

Poxa, sou eu burro? É ele burro? Frente a essa obtusidade de raciocínio, me sobram dois alvitres: ou elimino os tropos e as metáforas dos futuros textos, para granjear o acesso livre a mentes inábeis, ou continuo da maneira como me agrada. Vamos, me fale, o que devo fazer para ser entendido? Renunciar à linguagem figurada está fora de questão. Prefiro extinguir o blog neste instante, aniquilando-o ainda no berço.

Desonestidade intelectual é isso: fazer-se de distraído, forçar uma análise, ser tendencioso no trato de textos alheios. Pena que tem vida curta.

Mas nem tudo são censuras neste espaço de humildes pontos de vista. As cutiladas da sinceridade sabem dar lugar a agradecimentos. Sim, o blogueiro fez um link para cá e espichou a audiência. Agradeço-lhe, portanto. A subida vertiginosa de visitas, que me deixou com náuseas pela rapidez, quase enguiçou o blog. Tive de fazer manutenção em sua fonte. Contudo, a sinceridade tem ínfima envergadura para mascarar-lhe a avareza. Os acessos indicam a curiosidade dos internautas por opiniões que destoam da comum propagada. Denunciam que estão desconfiados daquele blogueiro – já que lhes incuti o germe da suspeita – e que estão cansados de ser tapeados. Agradeço-lhe, portanto.

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