Considerações literárias
A Queda Dum Anjo me surpreendeu. Superou as parcas expectativas que tinha em relação ao seu conteúdo. Comparado com as obras-primas de Camilo Castelo Branco, como Amor de Perdição e Amor de Salvação, é ainda produto menor, mas nos deixa também extasiados, não só pela pujante veia cômica do autor, mas pelo notável poder verbal. Não é sem merecimento que ele figura entre os maiores autores da Língua Portuguesa. Junto com Eça e Pessoa, é o escritor português que mais prezo, pela engenharia sintática ímpar e pela imaginação vigorosa.
Eu o encontrei por acaso num sebo. Tive uma crise existencial ao ter que decidir entre ele e Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett. No fim levei os dois. A ingenuidade do protagonista, os debates eloqüentes na Câmara dos Deputados, os seus modos e vestimentas risíveis, incompatíveis com a civilização lisboeta, são uma pérola do humor. Por trás da comicidade do personagem, nota-se uma latente crítica aos costumes e vícios. Apesar de melodramático, Camilo não estava plenamente encarcerado na divagação romântica, na sua fuga da realidade. A leitura do romance irá confirmar. Se a estética de Byron e Musset lhe rege preponderantemente a pena, é para abandoná-la quando ele emboca a tuba irônica.
E já foi dito que a melhor maneira de endireitar as condutas está na caricatura, onde tudo é ampliado, esticado e virado do avesso, para evidenciar os defeitos e envergonhar os defeituosos. Em A Queda Dum Anjo, ela se faz presente de modo magistral. O orador pedante, comum a qualquer época e muito conhecido de nossa realidade, ali é pintado a traços grossos, provocando risos justamente por se entreter em longos e empolados monólogos, sem chegar a lugar algum. Se fossem retiradas as discussões entre os parlamentares, em que a retórica vazia é o mote, o romance se enfraqueceria e perderia o que faz dele imperdível, na minha opinião.
O leitor poderá estranhar a empolgação com que me expresso. Aconselho que se abstenha disso, nunca fui defensor de mesquinharias. Não sou procurador de um autor defunto. Vejo, assimilo, analiso e exponho. É simples. O que todos deveriam fazer. O nível da argumentação pode motivar reprimendas, mas a franqueza que a guia ficará preservada, se tenho o privilégio de ser lido por leitores justos.
Com certeza, Camilo os teve. A posteridade ecoou a grata satisfação de lê-lo e fala por mim neste texto, ainda que de maneira chã. Seria sacrilégio ter um blog e omitir egoisticamente esse achado literário, que merece horas de leitura de quem pretende conhecer o nosso idioma além das fronteiras da vulgaridade moderna. Desbravemos, pois, os clássicos da língua de Camões. Comecemos por Vieira, Machado ou Alencar. O quê? Não me venha o leitor me recordar do já sabido. Sei que a Literatura Brasileira está despojada de um Grande autor, com “g” maiúsculo mesmo. Ainda estamos sedentos de um Cervantes, um Goethe ou um Shakespeare.. Mas, se queremos que nasça e se desenvolva em terra tropical, devemos fazer a nossa parte.
Quanto mais gente ler a elite de nosso idioma, mais veremos aumentada a probabilidade de um “Memórias de Adriano” - que chega ao extremo de entoar o hino da perfeição. Que obra formidável! Quem passar por este vale de lágrimas só terá vivido e sentido completamente se ler essa façanha da arte. É meu livro predileto!
Leiamos, então, os nossos clássicos. Se virarmos as costas ao passado, as possibilidades da Língua Portuguesa jamais serão exploradas em sua plenitude.

