PERSCRUTADOR

15 março, 2006

Elogio da Arrogância

A blogosfera era precocemente raquítica e decrépita até o instante glorioso, até o dia triunfal. Há muitos bytes se clamava por um blogueiro ungido de inspirações celestiais e perito na arte da palavra. Requeria-se que, com o tempo, ele preenchesse o vazio triste onde cloacas virtuais apenas sonhavam entrar, onde latrinas em formato de sites ambicionavam se infiltrar para corromper o solo sagrado, reservado ao iniciado. Pronto, já não se requer mais. Cá estou eu. Pode me aplaudir. Não seja avaro em reverência Chamei para mim a responsabilidade de fornecer por atacado qualidade e maestria e mereço, por isso, o reconhecimento descabelado de todos aqueles que têm o prazer de sorver o bálsamo da minha sapiência. Veja, vagabundeie pelo blog. A beleza e criatividade de meus textos são inenarráveis, indescritíveis. A impotência da palavra para expressar o sublime me prostra de fadiga quando tento tocá-lo.

Sei como ninguém o quanto será enfadonha a missão de injetar vigor onde hoje é modorra, de verter talento onde agora é amadorismo. Mas, como sou a reencarnação de algum escritor excepcional e bastante modesto, lhe ofenderia a memória se me portasse como mero observador e deixasse a plebe se definhar nas mãos dos despreparados. Sou tão hábil e sagaz que às vezes penso ser dotado de um gênio criador. Prodigalizo frases e parágrafos em jorros violentos de criatividade – nada me sai com dores parturientes. Os textos que dão viço e exuberância a este soberbo blog foram feitos de um jato. Escrevi-os enquanto comia macarronada, escutava música e folheava O Livro do Desassossego. Nenhum foi engendrado ao cabo de horas, mas de minutos.

Se a simultaneidade de ações e escassez de tempo pouco abismam, muito abismarei se disser que revelo apenas a décima parte de minha capacidade. E quem cultuar a vã esperança de que vou gastar, sem retorno algum, longos quinze minutos para dar vazão a todo meu potencial, esperançar-se-á até a cova. Sou bom, sou ótimo, sou incomparável - e também sou capitalista Ao lado das verdadeiras pérolas ainda por serem realizadas, estes rascunhos são execráveis imundícies. Imundícies excelentes – para me dar o prazer de um paradoxo. Poderia esmagar, esmigalhar alguém pelo destilar de uma curta e robusta frase. Por isso, pense bem antes de escarrar uma crítica negativa às imundícies arrebatadoras deste blog. Meus recursos de escrita são praticamente inesgotáveis. Posso estar tecendo fartos trechos de lirismo hedonista ou sorumbática melancolia e, numa guinada arrojada, me voltar furiosamente contra os escarros de ousados. Vá escarrar na vovozinha.

Se fosse poeta e ouvisse os sussurros das musas, fecundando-me o estro com palavras doces e francas, cinzelaria um soneto à grandiosidade de minhas futuras produções. E ele seria eternamente lido e citado como modelo de perfeição poética. Glória e louvor a mim!

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Em breve: Elogio da Modéstia.

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