Assuntos irritantes
Tenho observado um fato curioso. As pessoas que não têm o hábito de leitura se irritam mudamente com conversas que discorram sobre o livro ou a ação de ler. Parecem achar uma babaquice extravagante o “desperdiçar” de horas num ato que, à primeira vista, é de nula vantagem prática. Horrorizam-se por dentro se falamos com entusiasmo das peripécias de certo personagem ou do epílogo emocionante de narrativa recém apreciada. Torcem o nariz e franzem a testa, em demonstração de profundo desdém, perante qualquer manifestação de carinho pela atividade que deveria ser meramente corriqueira, tão ordinária quanto ver televisão. É claro que eu não as culpo por agirem assim. Os culpados são bastante conhecidos, e seria fastidioso insistir na lista e escancarar as obrigações. Ninguém as ignora. E política é assunto que me escapa das prioridades de reflexão. Cuidemos do fenômeno em si, sem considerar as relações mantidas.
Menoscabar a leitura não é crime previsto no Código Penal. Queiramos que assim continue. A Brasil viraria um deserto imenso e sem graça se os legisladores resolvessem variar a rotina ociosa através de lei que trancafiasse os ignaros. O Saara teria uma réplica em Brasília. Haveria um Atacama em cada Câmara Municipal. Pode-se depreciar a leitura, mas idêntico desdém com a paciência alheia é intolerável, é inconcebível. Ouvir resignado assuntos irritantemente vulgares, que passam por toda sorte de ninharia, é exigir de mim desgastante esforço, suplício inconciliável com a gratificação, que é porcaria nenhuma. Quantas vezes, meu Deus, tive de me segurar na cadeira para não abafar os suspiradores das goelas de quem estava falando de enterro, onde o defunto começava a exalar odores fétidos. Diga-me, o que tenho eu a ver com isso? Conheci o infeliz, troquei palavras com ele em qualquer dia da minha existência? Então vá para o inferno e dê lembranças a Satã.
Mas já providenciei uma maneira de revidar as afrontas - e é simples. Usarei a tática guerrilheira de aborrecimento que eles praticam: persistência. Após eles relatarem quão agitado e animado foi o forró ou o arrasta-pé, com as cachaças entornadas e os beijos roubados de banguelas, inicio de novo minha luta santa pela conversão dos infiéis. Esmiuçarei, detalharei, repetirei pela enésima vez todos os pontos louváveis de se vergar sobre um livro, todas as benesses de estrear o cérebro, mesmo que de forma tardia. “Sim, a leitura nos aguça a imaginação e expande a consciência crítica. Quem busca adquirir pelo menos um vestígio de vida independente só encontrará um caminho de emancipação: nos livros”. Assim, faremos o prelúdio de uma guerra que só terá ocaso em estrangulamento ou fuga covarde.

