PERSCRUTADOR

18 março, 2006

Estou lendo...

Acatando centenas de pedidos, hoje vou estrear, no lado do blog diametralmente oposto ao esquerdo, os livros que estão sendo lidos pelo blogueiro aqui. Vou fazê-lo e peço que não me calunie com vileza ao concluir pela minha índole de plagiador. Plagiar pressupõe copiar na íntegra ou em parte produtos de mentes fecundas ou levianas. E o que farei será um mero empréstimo, visando à utilização de recurso vulgar que permita aos meus fãs entender o enigma de minha genialidade. Conhecendo a fonte de meu saber ou por onde peregrino para tanger a perfeição, poderão ao menos tentar imitar o mestre e quiçá um dia me trepar nos calcanhares.

Queria tornar pública a lista completa das obras que já li esse ano, mas a nefanda modéstia e o reduzido espaço me impedem de constrangê-los a isso. Por mais que eu queira divulgar, o rol de livros ficaria entalado e seria empecilho à ligeireza do blog. E, depois da mofa, nada estimo mais que a ligeireza - seja da Internet, da franqueza ou da verdade.

Antecipo-me aos espíritos vadios e miúdos. É claro que mencionarei somente aquilo que estou apreciando. O ambiente do qual agora faço parte não me corrompeu tanto o caráter a ponto de inventar leituras. Ergui em volta de mim o muro blindado da moral ilibada e não será sem luta a violação do local sagrado, onde a mentira sofreu pena de desterro. Sei (como sei!) que muitos, para se dar falso ar de intelectual, compensam a pobreza do estilo no esticar obstinado de listas patéticas, que instauram um contraste patente entre o ser e o querer. Sendo incapazes de notar o flagrante em movimento, não advinham que qualquer entendedor de letra redonda os chasqueia em silêncio por serem tão ingênuos.

Em vez de se entreterem vãmente nesse buscar infatigável de títulos e autores, com que o Google, também pai dos burros, os presenteia com fartura, estariam melhor se os tivessem lendo mesmo, colhendo em suas estranhas o material que daria um pouco de robustez ao seu escrevinhar, tão ensopado do manusear imperito de iniciante.

Se uma vez sequer pudessem demonstrar que me besunto de engano e publicassem algo com elaboração, sem deixar expostos os andaimes do edifício, retiraria de imediato todas estas palavras fustigantes e pediria chorosamente desculpas, suplicando pela minha vida. Dêem-me o resultado de seu esforço e eu lhes retribuo com um texto de arrependimento, trocando a foto do Coringa, ali ao canto, pela dum asno. Mas me dêem! O que me ouriça a irritação é ver acéfalos escrevendo textos aleijados de tudo e, malgrado isso, fazerem-se de exímios escritores pela exposição do suposto solo em que se fertilizaram.

Mas voltemos aos livros em fase de apreciação – na realidade. Agora estou lendo três. Veja, não que os esteja lendo ao mesmo instante. Precisaria de três cérebros para tanto. Primeiro leio várias páginas de um, depois leio outras do seguinte e finalmente do último. Pela manhã, à tarde e à noite. Se tempo me resta, saboreio revistas científicas. Os jornais rareiam em minha escrivaninha. Esta explicação é importante para prevenir-me contra objeções idiotas, que se aproveitam do menor descuido daquele que se esquece de oferecer tudo mastigadinho, pronto para o trabalhar do estômago. Sem mais rodeios, vão abaixo os atuais bálsamos da minha alma.


- Caracteres, de La Bruyère
- Banquete, de Dante Alighieri
- O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco

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