Estou lendo...
Acatando centenas de pedidos, hoje vou estrear, no lado do blog diametralmente oposto ao esquerdo, os livros que estão sendo lidos pelo blogueiro aqui. Vou fazê-lo e peço que não me calunie com vileza ao concluir pela minha índole de plagiador. Plagiar pressupõe copiar na íntegra ou em parte produtos de mentes fecundas ou levianas. E o que farei será um mero empréstimo, visando à utilização de recurso vulgar que permita aos meus fãs entender o enigma de minha genialidade. Conhecendo a fonte de meu saber ou por onde peregrino para tanger a perfeição, poderão ao menos tentar imitar o mestre e quiçá um dia me trepar nos calcanhares.
Queria tornar pública a lista completa das obras que já li esse ano, mas a nefanda modéstia e o reduzido espaço me impedem de constrangê-los a isso. Por mais que eu queira divulgar, o rol de livros ficaria entalado e seria empecilho à ligeireza do blog. E, depois da mofa, nada estimo mais que a ligeireza - seja da Internet, da franqueza ou da verdade.
Antecipo-me aos espíritos vadios e miúdos. É claro que mencionarei somente aquilo que estou apreciando. O ambiente do qual agora faço parte não me corrompeu tanto o caráter a ponto de inventar leituras. Ergui em volta de mim o muro blindado da moral ilibada e não será sem luta a violação do local sagrado, onde a mentira sofreu pena de desterro. Sei (como sei!) que muitos, para se dar falso ar de intelectual, compensam a pobreza do estilo no esticar obstinado de listas patéticas, que instauram um contraste patente entre o ser e o querer. Sendo incapazes de notar o flagrante em movimento, não advinham que qualquer entendedor de letra redonda os chasqueia em silêncio por serem tão ingênuos.
Em vez de se entreterem vãmente nesse buscar infatigável de títulos e autores, com que o Google, também pai dos burros, os presenteia com fartura, estariam melhor se os tivessem lendo mesmo, colhendo em suas estranhas o material que daria um pouco de robustez ao seu escrevinhar, tão ensopado do manusear imperito de iniciante.
Se uma vez sequer pudessem demonstrar que me besunto de engano e publicassem algo com elaboração, sem deixar expostos os andaimes do edifício, retiraria de imediato todas estas palavras fustigantes e pediria chorosamente desculpas, suplicando pela minha vida. Dêem-me o resultado de seu esforço e eu lhes retribuo com um texto de arrependimento, trocando a foto do Coringa, ali ao canto, pela dum asno. Mas me dêem! O que me ouriça a irritação é ver acéfalos escrevendo textos aleijados de tudo e, malgrado isso, fazerem-se de exímios escritores pela exposição do suposto solo em que se fertilizaram.
Mas voltemos aos livros em fase de apreciação – na realidade. Agora estou lendo três. Veja, não que os esteja lendo ao mesmo instante. Precisaria de três cérebros para tanto. Primeiro leio várias páginas de um, depois leio outras do seguinte e finalmente do último. Pela manhã, à tarde e à noite. Se tempo me resta, saboreio revistas científicas. Os jornais rareiam em minha escrivaninha. Esta explicação é importante para prevenir-me contra objeções idiotas, que se aproveitam do menor descuido daquele que se esquece de oferecer tudo mastigadinho, pronto para o trabalhar do estômago. Sem mais rodeios, vão abaixo os atuais bálsamos da minha alma.
- Caracteres, de La Bruyère
- Banquete, de Dante Alighieri
- O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco

