A verdade
A verdade pode incomodar, ser motivo de ódios tremendos e rancores profundos, mas sempre deve ser dita, apontada, decomposta e analisada, para que se indique a sensata direção ou se corrija o caminho censurável. Sei, com clareza espantosa, que este blog, sustentado pela sinceridade no dizer, é mal visto, por lançar ao chão vaidades e convicções, e que dá largas a críticas epilépticas de bajulados e bajuladores. Sei também que estou passível de ser molestado em minha falta de conivência com o chulo e o descartável, como se o asseio moral, ou a tentativa de propagá-lo, fosse o oitavo pecado. Tenho ciência de que minha voz ecoa em uníssono. Mas o que posso eu fazer se tenho inenarrável aversão às tolices que se disseminam pela web? Estou que julgo estar fazendo um favor àqueles que coxeiam do intelecto, aos mancos da livre escolha, aos aleijados do senso crítico. Se fosse impiedoso, ficaria em meu canto, às ocultas, e deixaria os principiantes desprotegidos nas mãos dos amadores.
Ah, os amadores, como é apavorante o estoque de inutilidades que mantêm guardado no porão de sua pequenez! Parece não ter fim. A cada click, avança sobre a tela, de forma desengonçada, toda sorte de execrações e insultos, num culto patético ao reles. Não me refiro aqui aos blogueiros que mal sabem diferenciar verbo de advérbio, cuja gramática e ortografia são sofríveis, a ponto de praticarem estupros lingüísticos. Faço idéia das contorções atrozes que acompanham a feitura de um mísero parágrafo. Eles se lançam à empresa de escrever sem nunca ter lido um único conto ou folheado um arremedo de gramática. A esses só posso lançar olhos benévolos e aguardar, esperançoso, que cesse sua letargia no trato da palavra.
Reporto-me, pelo contrário, aos que se aplaudem e se cumprimentam por supostamente ser grandes leitores, chegando ao extremo de forjar listas de leitura. É incompreensível escrever de modo pedestre se o hábito de ler concorre em freqüência e intensidade com o de respirar. Certos indivíduos passam aos seus leitores mais atentos essa contraditória impressão, a de ser leitores vorazes que patinam no teclado quando tentam escarrar uma idéia. Perdoe-me o termo torpe, caro internauta, é que agora nenhuma outra palavra tão expressiva e menos vulgar me alcança. Pelo menos me serve para já prenunciar sua parenta íntima, porcaria, substantivo que se instala como marca d’água nos textos desses blogueiros, repercutindo pelos links e imagens.
Quem já teve o desprazer de visitar esses sites não poderá sair em defesa deles. E falar sobre seu uso correto da gramática não lhes alivia o peso dum fardo maior: a grande simplicidade estilística de sua prosa. Ora, saber regras gramaticais é essencial à clareza da escrita, é primário, não se levando em conta em relação a alguém que pretende chegar às livrarias. Se eles perseverarem nesse nível desnutrido de linguagem, a maledicência (não eu, pois sou piedoso) poderá falar que o único lugar da livraria próprio a eles é o balcão. Se assim se pronunciar, vislumbro que só haverá fracos argumentadores contra tão constrangedora afirmação. Como aqui quero exercer tanto a cura quanto a terapêutica, lhes aconselho a confissão de seus pecados virtuais, para abrandar a discrepância entre o dito e o feito. Falem de uma vez a verdade. Digam que atualizam listas de leitura gratuitamente, a esmo. Ou retirem tudo e coloquem no lugar sua real preferência de entretenimento: os gibis da Mônica. Qualquer alternativa, menos a de entupir o blog com mentiras.


