PERSCRUTADOR

14 abril, 2006

A verdade

A verdade pode incomodar, ser motivo de ódios tremendos e rancores profundos, mas sempre deve ser dita, apontada, decomposta e analisada, para que se indique a sensata direção ou se corrija o caminho censurável. Sei, com clareza espantosa, que este blog, sustentado pela sinceridade no dizer, é mal visto, por lançar ao chão vaidades e convicções, e que dá largas a críticas epilépticas de bajulados e bajuladores. Sei também que estou passível de ser molestado em minha falta de conivência com o chulo e o descartável, como se o asseio moral, ou a tentativa de propagá-lo, fosse o oitavo pecado. Tenho ciência de que minha voz ecoa em uníssono. Mas o que posso eu fazer se tenho inenarrável aversão às tolices que se disseminam pela web? Estou que julgo estar fazendo um favor àqueles que coxeiam do intelecto, aos mancos da livre escolha, aos aleijados do senso crítico. Se fosse impiedoso, ficaria em meu canto, às ocultas, e deixaria os principiantes desprotegidos nas mãos dos amadores.

Ah, os amadores, como é apavorante o estoque de inutilidades que mantêm guardado no porão de sua pequenez! Parece não ter fim. A cada click, avança sobre a tela, de forma desengonçada, toda sorte de execrações e insultos, num culto patético ao reles. Não me refiro aqui aos blogueiros que mal sabem diferenciar verbo de advérbio, cuja gramática e ortografia são sofríveis, a ponto de praticarem estupros lingüísticos. Faço idéia das contorções atrozes que acompanham a feitura de um mísero parágrafo. Eles se lançam à empresa de escrever sem nunca ter lido um único conto ou folheado um arremedo de gramática. A esses só posso lançar olhos benévolos e aguardar, esperançoso, que cesse sua letargia no trato da palavra.

Reporto-me, pelo contrário, aos que se aplaudem e se cumprimentam por supostamente ser grandes leitores, chegando ao extremo de forjar listas de leitura. É incompreensível escrever de modo pedestre se o hábito de ler concorre em freqüência e intensidade com o de respirar. Certos indivíduos passam aos seus leitores mais atentos essa contraditória impressão, a de ser leitores vorazes que patinam no teclado quando tentam escarrar uma idéia. Perdoe-me o termo torpe, caro internauta, é que agora nenhuma outra palavra tão expressiva e menos vulgar me alcança. Pelo menos me serve para já prenunciar sua parenta íntima, porcaria, substantivo que se instala como marca d’água nos textos desses blogueiros, repercutindo pelos links e imagens.

Quem já teve o desprazer de visitar esses sites não poderá sair em defesa deles. E falar sobre seu uso correto da gramática não lhes alivia o peso dum fardo maior: a grande simplicidade estilística de sua prosa. Ora, saber regras gramaticais é essencial à clareza da escrita, é primário, não se levando em conta em relação a alguém que pretende chegar às livrarias. Se eles perseverarem nesse nível desnutrido de linguagem, a maledicência (não eu, pois sou piedoso) poderá falar que o único lugar da livraria próprio a eles é o balcão. Se assim se pronunciar, vislumbro que só haverá fracos argumentadores contra tão constrangedora afirmação. Como aqui quero exercer tanto a cura quanto a terapêutica, lhes aconselho a confissão de seus pecados virtuais, para abrandar a discrepância entre o dito e o feito. Falem de uma vez a verdade. Digam que atualizam listas de leitura gratuitamente, a esmo. Ou retirem tudo e coloquem no lugar sua real preferência de entretenimento: os gibis da Mônica. Qualquer alternativa, menos a de entupir o blog com mentiras.

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02 abril, 2006

Política e imoralidade

Na última semana, o Governador veio aqui inaugurar buracos recém-formados nas estradas e ruas da cidade. Esse “acontecimento” me fez lembrar a safadeza dos políticos. Basta aproximar o período eleitoral para qualquer pretexto ridículo ser motivo de viagens e tapinhas nas costas. E, quando se elegem ou se reelegem, os locais por onde passaram ficam neles como lembranças distantes, quase visões oníricas - impalpáveis. O orçamento, que antes dava para tudo, armazém farto e inesgotável, transformar-se de repente, a partir da posse, em dispensa humilde de assalariado. A educação, que poderia facilmente ser sinônimo de qualidade, surge, da noite para o dia, como o maior problema do Estado – enigma indecifrável. A saúde, factível de cura com os remédios milagrosos da administração competente, é aconselhada a visitar os benzedeiros e charlatães, pois falta dinheiro nos cofres públicos. Tudo é difícil, pouca coisa é viável. Que vão para o inferno os esfarrapados e desamparados. “Não sou eu mesmo”, devem pensar.

O melhor das visitas, principalmente de Governador, é ver espalhados por toda cidade cartazes hipócritas e bajuladores, que dão as boas vindas ao ilustre homem. “A cidade se orgulha de receber o representante máximo do Executivo, autor de grandes benefícios à comunidade”. Ou então, “A povo está em festa com a presença do Governador”, e outros tantos. Mas tenho as minhas dúvidas se essas mensagens são fiéis à opinião comum. Parecem espelhar mais interesses facciosos, de parte mínima da sociedade. O correto seria dizer que 0,5% da população se orgulhar de receber... está em festa... Justamente aquela minoria que vai de fato se beneficiar com a reeleição, ou eleição, do candidato recepcionado. Se me desse o ímpeto de redigir frases que penso ser verdadeiras, aos falsos responderia eu com vantagem, e precisaria apenas de um cartaz. “Unte sebo às canelas e vá pedir votos à mamãezinha”.

A cena vexatória daquela deputada federal foi a cacetada de misericórdia na minha pouca fé nos políticos. Se antes tinha uma centelha de respeito por eles, apagou-se ao sopro constrangedor da dança da vitória – vitória da impunidade e desfaçatez. Depois ela disse que não era seu intuito ultrajar nem desrespeitar a nação, tinha apenas cedido à felicidade de ver um companheiro ser absolvido, como qualquer outro teria feito. Alto lá, dançarina! Não nos venha com generalizações! Um representante digno do povo, consciente de seus deveres, ficaria quieto em sua cadeira e se ruborizaria perante o país, por ter exprimido na lama a face do Legislativo. Dançar, rodopiar e franzir um risinho cínico são ações que raramente se conjugam na mesma pessoa (deputado), na mesma circunstância (resultado de processo de cassação) e no mesmo lugar (Congresso Nacional), embora grande parte seja biltre até as caspas do cabelo. Nessa eleição, conspirarei pelo voto em branco.

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01 abril, 2006

Variando o estilo

Acusaram-me de ser pedante e complexo no lidar com as palavras. Falaram que devo ser simples, sem carregar as idéias com as flores preciosas da metáfora – flores que são a base da literatura, indispensáveis à sua existência. Até disseram, implicitamente, que Eça de Queirós reencarnou em meu corpo e que retomou a carreira literária, como se isso pudesse me ofender – vejam só. O próprio Conselheiro Acácio anda me usando para dar vazão ao seu ar de falso intelectual, argumentam. Argumento contestável se levarmos em conta o fato de que ninguém me conhece, não sabendo se estou escrevendo com seriedade ou se tenho procurado me divertir às custas de vocês.

Notei, assim, que os internautas, em sua completude, são chegados a textos medianos, de pouca ou nenhuma sofisticação. Querem tudo dito de modo cru, direto, num único fôlego de simplicidade, sem a intermediação da linguagem figurada. O blogueiro, para ter sucesso, deverá ser amigo íntimo, carnal do expressar simplista, do dizer frio, do comunicar-se ligeiro, em que três palavras apontam o tema e outras três o concluem, na incansável perseguição da mediocridade.

Se quero ser lido e visitado, preciso mudar de estilo, revolucionar-me negativamente, nivelando o nível da expressão à expectativa de bater os olhos e ver, em primeiro plano, o conteúdo, com total esquecimento do meio que o levou até as retinas. O preferível, então, será “está chovendo forte”, nunca “desaba uma cortina densa de água”. Será “estou todo cansado”, jamais “abandonado pelo ânimo físico e moral”. Dou adeus à elaboração e recebo de braços arreganhados o estilo de um “primeiras letras”, que ainda patina na regras elementares da Gramática. Ops! Escrevi “patina”. Desculpe, o certo seria “erra”. Erra as regrinhas da Língua Portuguesa.

Está bem, vou fazer de tudo para conseguir ser límpido, cristalino, claríssimo. Mas só em dois ou três posts. Não me peça agora para me entregar servilmente ao torpe e, além disso, aceitar-lhe as ordens até a morte. É solicitar o impossível. Morro antes de tristeza e agonia por ficar longe de minhas doces metonímias. Para começar com o pé direito, vai uma frase que é a mais simples, banal e compreensível de todas já ouvidas e ditas. Ela vem em sintonia com o meu estado de espírito, que está pouco contente por ser forçado a engolir as imposições sutis dos leitores. Aqui está: “vão tomar no cu!”. Que tal? O “cu” é sem acento mesmo, ao contrário do que outros acham. É palavra monossílaba terminada em “u”. Se fosse em “a, e ou o”, receberia a acentuação gráfica. A aula vai de graça.

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28 março, 2006

Escravo do capitalismo

Quem se convence de que a escravidão está abolida é um forasteiro em seu próprio país, um alienígena em seu próprio planeta. Vive num constante alienar-se, num espontâneo movimento de esquivar-se à amarga realidade. A esmagadora maioria nasce escrava, cresce no pelourinho da rotina, com os açoites ardentes do capitão-do-mato (patrão), trabalha no eito do escritório, com algozes como companheiros de lida, e morre no anonimato da nulidade. Somos escravos e não teremos, ao que parece, uma princesa Isabel que arrebente nossas correntes, restituindo-nos ao colo da mãe África, à África da liberdade. Tudo é um interminável aturar, suportar, soluçar, afligir e angustiar. E o horizonte longínquo não insinua expectativa de melhora. Entramos numa fase sem opção de retorno, que nos dá como lenitivo a esperança de estar próxima de tocar o limite do suportável. Quando ultrapassá-lo, veremos finalmente as seculares bestas bíblicas.

É difícil ter outra opinião diante dos fatos. Lá vai mais um trabalhador braçal carregar tijolos, areia e cimento. O seu dia será de novo a renovação de um suplício que se suspendeu no dia anterior, que, por sua vez, é continuidade de outro e de outro. Caminha pela ruela estreita e suja quase sem consciência de si, sem nenhuma do trabalho. É um alienado! Pergunte a ele sobre os componentes da argamassa. Indague-o da poluição necessária para cozer aqueles tijolos. Estimule-o a tecer considerações acerca dos ângulos da casa e os cálculos de sua arquitetura arrojada. Melhor, não pergunte nada! Ele os desconhece... O que interessa ao empregador é tão-somente a força dos seus músculos, a agilidade com que carrega vigas e carriolas, o resignar eqüino em sua condição, e o trabalhador o satisfaz. Para que fatigá-lo com a atividade extra de pensar? Mal consegue somar, mal é entendido no mistério das palavras escritas.

Deixe-o como está, saia da frente, com este ar presunçoso de professor universitário. Parece não ver que já está atrasado, que as pernas do pobre diabo obedecem a estímulos mecânicos, vindos de uma cabeça instruída a sempre repetir comandos programados. Neste suadouro sem trégua, neste labutar desumano, deixe-o empunhar a pá e brandir o martelo, mas também deixe-o, ao mesmo tempo, pensar na falsa maciez do travesseiro e nas promessas de maravilhas do leito conjugal - poucos consolos de uma vida áspera. Maravilhas que darão origem a outros trabalhadorzinhos, igualmente fadados a este destino escravo - engrenagens novas para substituir as gastas.

Ah! Paro por aqui. Desisto de convidá-lo para acompanhar-me mais nesta incursão pelo inferno. Pouparei o leitor de ver de perto a rotina daquele executivo e daquela funcionária pública. São muito lúgubres, e hoje me faltam tintas grossas para impregnar a tela com a melancólica vidinha deles. Recuso-me a dizer que são escravos ao quadrado, que os mais conscientes dos grilhões da escravidão padecem de uma tristeza imperscrutável, superficialmente disfarçada, muito superior à do pedreiro. Depois eu digo, estou sem inspiração. O próprio escrever está virando para mim ato mecânico. Tomara que seja temporário engano. Se converter-se também em aborrecimento, suspirarei pelo chicote.

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25 março, 2006

Confusão ofensiva

Tenho visto confusão forçada acerca do proprietário deste blog. Muitos estão atribuindo a sua autoria a um certo Libertário, que mantém um esgoto digital na Internet. Posso desculpar, sem rancor, que venham aqui, leiam, apreciem e saiam em silêncio, deixando suspensa a opinião sobre os posts. Embora pouco educado – pois ofereço a oportunidade de limpar a língua com a demonstração rara do cinzelar verbal-, é conduta comum entre os internautas analfabetos. Seria exigência em demasia esperar um comentário articulado de incipientes no bê-á-bá. Mas se embaraçar tanto a ponto de confundir na mesma ignorância a água e o vinho é demais, é muito forte para mim - só pode ser evidência inabalável de estupidez. Se houvesse tribunal onde se buscasse provar a existência de ignaros, de obtusidades córneas, eu teria sólidos elementos para condenar vários à prisão perpétua.

Pelo que sei, o Libertário não é nenhum Fernando Pessoa. Não tem múltiplas personalidades literárias. A façanha de variar totalmente de estilo, quando bem lhe apetece, é habilidade desconhecida por sua mirrada caixa de recursos. Alberto Caieiro e Bernardo Soares jamais moraram dentro dele. Então por que andam afirmando o oposto? Se colocarmos nossos posts lado a lado, veremos quão estupidamente se enganam os crentes na versatilidade verbal daquele blogueiro. Um vasculhar atento em seu arquivo de pseudotextos dará a confirmação disso. O que salta dali pode ser tachado de tudo, exceto de parente de minhas entranhas criativas. Uma frase minha vale por dez parágrafos dele. Uma rajada de minha crítica deixa em frangalhos seus posts ardorosamente paridos. O conjunto de meus poucos textos, que me tomou alguns minutos, equivale aos três anos de atualização nefasta de suas depravações e idiotias.

Esta defesa veemente poderia cair por terra se fosse apenas exercício de redação. Se fosse trivial aquecimento de dedos, sem base em que se estender. Os leitores mais argutos logo notariam a farsa, e eu veria sabotada a credibilidade de blogueiro profissional. “Se fosse”. O Libertário, até onde me faço saber, em seu exíguo poder de expressão, só consegue publicar espasmos de textos, farrapos de idéias. Estas podem ser boas, mas carecem de um exprimir-se consistente, de um lapidar preciso, de uma escolha justa das palavras, de um afastar tempestivo da trivialidade com que torna públicos os pensamentos.

Quero dizer com isso que sou insuperável? Bem, sou muito acanhado para responder. Deixo a cargo do leitor plenamente alfabetizado a resposta a esta pergunta. Só determino que renunciem à confusão de autores e textos. Eu sou eu. Ele é ele. Simples e claro.

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18 março, 2006

Estou lendo...

Acatando centenas de pedidos, hoje vou estrear, no lado do blog diametralmente oposto ao esquerdo, os livros que estão sendo lidos pelo blogueiro aqui. Vou fazê-lo e peço que não me calunie com vileza ao concluir pela minha índole de plagiador. Plagiar pressupõe copiar na íntegra ou em parte produtos de mentes fecundas ou levianas. E o que farei será um mero empréstimo, visando à utilização de recurso vulgar que permita aos meus fãs entender o enigma de minha genialidade. Conhecendo a fonte de meu saber ou por onde peregrino para tanger a perfeição, poderão ao menos tentar imitar o mestre e quiçá um dia me trepar nos calcanhares.

Queria tornar pública a lista completa das obras que já li esse ano, mas a nefanda modéstia e o reduzido espaço me impedem de constrangê-los a isso. Por mais que eu queira divulgar, o rol de livros ficaria entalado e seria empecilho à ligeireza do blog. E, depois da mofa, nada estimo mais que a ligeireza - seja da Internet, da franqueza ou da verdade.

Antecipo-me aos espíritos vadios e miúdos. É claro que mencionarei somente aquilo que estou apreciando. O ambiente do qual agora faço parte não me corrompeu tanto o caráter a ponto de inventar leituras. Ergui em volta de mim o muro blindado da moral ilibada e não será sem luta a violação do local sagrado, onde a mentira sofreu pena de desterro. Sei (como sei!) que muitos, para se dar falso ar de intelectual, compensam a pobreza do estilo no esticar obstinado de listas patéticas, que instauram um contraste patente entre o ser e o querer. Sendo incapazes de notar o flagrante em movimento, não advinham que qualquer entendedor de letra redonda os chasqueia em silêncio por serem tão ingênuos.

Em vez de se entreterem vãmente nesse buscar infatigável de títulos e autores, com que o Google, também pai dos burros, os presenteia com fartura, estariam melhor se os tivessem lendo mesmo, colhendo em suas estranhas o material que daria um pouco de robustez ao seu escrevinhar, tão ensopado do manusear imperito de iniciante.

Se uma vez sequer pudessem demonstrar que me besunto de engano e publicassem algo com elaboração, sem deixar expostos os andaimes do edifício, retiraria de imediato todas estas palavras fustigantes e pediria chorosamente desculpas, suplicando pela minha vida. Dêem-me o resultado de seu esforço e eu lhes retribuo com um texto de arrependimento, trocando a foto do Coringa, ali ao canto, pela dum asno. Mas me dêem! O que me ouriça a irritação é ver acéfalos escrevendo textos aleijados de tudo e, malgrado isso, fazerem-se de exímios escritores pela exposição do suposto solo em que se fertilizaram.

Mas voltemos aos livros em fase de apreciação – na realidade. Agora estou lendo três. Veja, não que os esteja lendo ao mesmo instante. Precisaria de três cérebros para tanto. Primeiro leio várias páginas de um, depois leio outras do seguinte e finalmente do último. Pela manhã, à tarde e à noite. Se tempo me resta, saboreio revistas científicas. Os jornais rareiam em minha escrivaninha. Esta explicação é importante para prevenir-me contra objeções idiotas, que se aproveitam do menor descuido daquele que se esquece de oferecer tudo mastigadinho, pronto para o trabalhar do estômago. Sem mais rodeios, vão abaixo os atuais bálsamos da minha alma.


- Caracteres, de La Bruyère
- Banquete, de Dante Alighieri
- O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco

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16 março, 2006

Assuntos irritantes

Tenho observado um fato curioso. As pessoas que não têm o hábito de leitura se irritam mudamente com conversas que discorram sobre o livro ou a ação de ler. Parecem achar uma babaquice extravagante o “desperdiçar” de horas num ato que, à primeira vista, é de nula vantagem prática. Horrorizam-se por dentro se falamos com entusiasmo das peripécias de certo personagem ou do epílogo emocionante de narrativa recém apreciada. Torcem o nariz e franzem a testa, em demonstração de profundo desdém, perante qualquer manifestação de carinho pela atividade que deveria ser meramente corriqueira, tão ordinária quanto ver televisão. É claro que eu não as culpo por agirem assim. Os culpados são bastante conhecidos, e seria fastidioso insistir na lista e escancarar as obrigações. Ninguém as ignora. E política é assunto que me escapa das prioridades de reflexão. Cuidemos do fenômeno em si, sem considerar as relações mantidas.

Menoscabar a leitura não é crime previsto no Código Penal. Queiramos que assim continue. A Brasil viraria um deserto imenso e sem graça se os legisladores resolvessem variar a rotina ociosa através de lei que trancafiasse os ignaros. O Saara teria uma réplica em Brasília. Haveria um Atacama em cada Câmara Municipal. Pode-se depreciar a leitura, mas idêntico desdém com a paciência alheia é intolerável, é inconcebível. Ouvir resignado assuntos irritantemente vulgares, que passam por toda sorte de ninharia, é exigir de mim desgastante esforço, suplício inconciliável com a gratificação, que é porcaria nenhuma. Quantas vezes, meu Deus, tive de me segurar na cadeira para não abafar os suspiradores das goelas de quem estava falando de enterro, onde o defunto começava a exalar odores fétidos. Diga-me, o que tenho eu a ver com isso? Conheci o infeliz, troquei palavras com ele em qualquer dia da minha existência? Então vá para o inferno e dê lembranças a Satã.

Mas já providenciei uma maneira de revidar as afrontas - e é simples. Usarei a tática guerrilheira de aborrecimento que eles praticam: persistência. Após eles relatarem quão agitado e animado foi o forró ou o arrasta-pé, com as cachaças entornadas e os beijos roubados de banguelas, inicio de novo minha luta santa pela conversão dos infiéis. Esmiuçarei, detalharei, repetirei pela enésima vez todos os pontos louváveis de se vergar sobre um livro, todas as benesses de estrear o cérebro, mesmo que de forma tardia. “Sim, a leitura nos aguça a imaginação e expande a consciência crítica. Quem busca adquirir pelo menos um vestígio de vida independente só encontrará um caminho de emancipação: nos livros”. Assim, faremos o prelúdio de uma guerra que só terá ocaso em estrangulamento ou fuga covarde.

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