Escravo do capitalismo
Quem se convence de que a escravidão está abolida é um forasteiro em seu próprio país, um alienígena em seu próprio planeta. Vive num constante alienar-se, num espontâneo movimento de esquivar-se à amarga realidade. A esmagadora maioria nasce escrava, cresce no pelourinho da rotina, com os açoites ardentes do capitão-do-mato (patrão), trabalha no eito do escritório, com algozes como companheiros de lida, e morre no anonimato da nulidade. Somos escravos e não teremos, ao que parece, uma princesa Isabel que arrebente nossas correntes, restituindo-nos ao colo da mãe África, à África da liberdade. Tudo é um interminável aturar, suportar, soluçar, afligir e angustiar. E o horizonte longínquo não insinua expectativa de melhora. Entramos numa fase sem opção de retorno, que nos dá como lenitivo a esperança de estar próxima de tocar o limite do suportável. Quando ultrapassá-lo, veremos finalmente as seculares bestas bíblicas.
É difícil ter outra opinião diante dos fatos. Lá vai mais um trabalhador braçal carregar tijolos, areia e cimento. O seu dia será de novo a renovação de um suplício que se suspendeu no dia anterior, que, por sua vez, é continuidade de outro e de outro. Caminha pela ruela estreita e suja quase sem consciência de si, sem nenhuma do trabalho. É um alienado! Pergunte a ele sobre os componentes da argamassa. Indague-o da poluição necessária para cozer aqueles tijolos. Estimule-o a tecer considerações acerca dos ângulos da casa e os cálculos de sua arquitetura arrojada. Melhor, não pergunte nada! Ele os desconhece... O que interessa ao empregador é tão-somente a força dos seus músculos, a agilidade com que carrega vigas e carriolas, o resignar eqüino em sua condição, e o trabalhador o satisfaz. Para que fatigá-lo com a atividade extra de pensar? Mal consegue somar, mal é entendido no mistério das palavras escritas.
Deixe-o como está, saia da frente, com este ar presunçoso de professor universitário. Parece não ver que já está atrasado, que as pernas do pobre diabo obedecem a estímulos mecânicos, vindos de uma cabeça instruída a sempre repetir comandos programados. Neste suadouro sem trégua, neste labutar desumano, deixe-o empunhar a pá e brandir o martelo, mas também deixe-o, ao mesmo tempo, pensar na falsa maciez do travesseiro e nas promessas de maravilhas do leito conjugal - poucos consolos de uma vida áspera. Maravilhas que darão origem a outros trabalhadorzinhos, igualmente fadados a este destino escravo - engrenagens novas para substituir as gastas.
Ah! Paro por aqui. Desisto de convidá-lo para acompanhar-me mais nesta incursão pelo inferno. Pouparei o leitor de ver de perto a rotina daquele executivo e daquela funcionária pública. São muito lúgubres, e hoje me faltam tintas grossas para impregnar a tela com a melancólica vidinha deles. Recuso-me a dizer que são escravos ao quadrado, que os mais conscientes dos grilhões da escravidão padecem de uma tristeza imperscrutável, superficialmente disfarçada, muito superior à do pedreiro. Depois eu digo, estou sem inspiração. O próprio escrever está virando para mim ato mecânico. Tomara que seja temporário engano. Se converter-se também em aborrecimento, suspirarei pelo chicote.

