Política e imoralidade
Na última semana, o Governador veio aqui inaugurar buracos recém-formados nas estradas e ruas da cidade. Esse “acontecimento” me fez lembrar a safadeza dos políticos. Basta aproximar o período eleitoral para qualquer pretexto ridículo ser motivo de viagens e tapinhas nas costas. E, quando se elegem ou se reelegem, os locais por onde passaram ficam neles como lembranças distantes, quase visões oníricas - impalpáveis. O orçamento, que antes dava para tudo, armazém farto e inesgotável, transformar-se de repente, a partir da posse, em dispensa humilde de assalariado. A educação, que poderia facilmente ser sinônimo de qualidade, surge, da noite para o dia, como o maior problema do Estado – enigma indecifrável. A saúde, factível de cura com os remédios milagrosos da administração competente, é aconselhada a visitar os benzedeiros e charlatães, pois falta dinheiro nos cofres públicos. Tudo é difícil, pouca coisa é viável. Que vão para o inferno os esfarrapados e desamparados. “Não sou eu mesmo”, devem pensar.
O melhor das visitas, principalmente de Governador, é ver espalhados por toda cidade cartazes hipócritas e bajuladores, que dão as boas vindas ao ilustre homem. “A cidade se orgulha de receber o representante máximo do Executivo, autor de grandes benefícios à comunidade”. Ou então, “A povo está em festa com a presença do Governador”, e outros tantos. Mas tenho as minhas dúvidas se essas mensagens são fiéis à opinião comum. Parecem espelhar mais interesses facciosos, de parte mínima da sociedade. O correto seria dizer que 0,5% da população se orgulhar de receber... está em festa... Justamente aquela minoria que vai de fato se beneficiar com a reeleição, ou eleição, do candidato recepcionado. Se me desse o ímpeto de redigir frases que penso ser verdadeiras, aos falsos responderia eu com vantagem, e precisaria apenas de um cartaz. “Unte sebo às canelas e vá pedir votos à mamãezinha”.
A cena vexatória daquela deputada federal foi a cacetada de misericórdia na minha pouca fé nos políticos. Se antes tinha uma centelha de respeito por eles, apagou-se ao sopro constrangedor da dança da vitória – vitória da impunidade e desfaçatez. Depois ela disse que não era seu intuito ultrajar nem desrespeitar a nação, tinha apenas cedido à felicidade de ver um companheiro ser absolvido, como qualquer outro teria feito. Alto lá, dançarina! Não nos venha com generalizações! Um representante digno do povo, consciente de seus deveres, ficaria quieto em sua cadeira e se ruborizaria perante o país, por ter exprimido na lama a face do Legislativo. Dançar, rodopiar e franzir um risinho cínico são ações que raramente se conjugam na mesma pessoa (deputado), na mesma circunstância (resultado de processo de cassação) e no mesmo lugar (Congresso Nacional), embora grande parte seja biltre até as caspas do cabelo. Nessa eleição, conspirarei pelo voto em branco.

