PERSCRUTADOR

01 abril, 2006

Variando o estilo

Acusaram-me de ser pedante e complexo no lidar com as palavras. Falaram que devo ser simples, sem carregar as idéias com as flores preciosas da metáfora – flores que são a base da literatura, indispensáveis à sua existência. Até disseram, implicitamente, que Eça de Queirós reencarnou em meu corpo e que retomou a carreira literária, como se isso pudesse me ofender – vejam só. O próprio Conselheiro Acácio anda me usando para dar vazão ao seu ar de falso intelectual, argumentam. Argumento contestável se levarmos em conta o fato de que ninguém me conhece, não sabendo se estou escrevendo com seriedade ou se tenho procurado me divertir às custas de vocês.

Notei, assim, que os internautas, em sua completude, são chegados a textos medianos, de pouca ou nenhuma sofisticação. Querem tudo dito de modo cru, direto, num único fôlego de simplicidade, sem a intermediação da linguagem figurada. O blogueiro, para ter sucesso, deverá ser amigo íntimo, carnal do expressar simplista, do dizer frio, do comunicar-se ligeiro, em que três palavras apontam o tema e outras três o concluem, na incansável perseguição da mediocridade.

Se quero ser lido e visitado, preciso mudar de estilo, revolucionar-me negativamente, nivelando o nível da expressão à expectativa de bater os olhos e ver, em primeiro plano, o conteúdo, com total esquecimento do meio que o levou até as retinas. O preferível, então, será “está chovendo forte”, nunca “desaba uma cortina densa de água”. Será “estou todo cansado”, jamais “abandonado pelo ânimo físico e moral”. Dou adeus à elaboração e recebo de braços arreganhados o estilo de um “primeiras letras”, que ainda patina na regras elementares da Gramática. Ops! Escrevi “patina”. Desculpe, o certo seria “erra”. Erra as regrinhas da Língua Portuguesa.

Está bem, vou fazer de tudo para conseguir ser límpido, cristalino, claríssimo. Mas só em dois ou três posts. Não me peça agora para me entregar servilmente ao torpe e, além disso, aceitar-lhe as ordens até a morte. É solicitar o impossível. Morro antes de tristeza e agonia por ficar longe de minhas doces metonímias. Para começar com o pé direito, vai uma frase que é a mais simples, banal e compreensível de todas já ouvidas e ditas. Ela vem em sintonia com o meu estado de espírito, que está pouco contente por ser forçado a engolir as imposições sutis dos leitores. Aqui está: “vão tomar no cu!”. Que tal? O “cu” é sem acento mesmo, ao contrário do que outros acham. É palavra monossílaba terminada em “u”. Se fosse em “a, e ou o”, receberia a acentuação gráfica. A aula vai de graça.

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