PERSCRUTADOR

28 março, 2006

Escravo do capitalismo

Quem se convence de que a escravidão está abolida é um forasteiro em seu próprio país, um alienígena em seu próprio planeta. Vive num constante alienar-se, num espontâneo movimento de esquivar-se à amarga realidade. A esmagadora maioria nasce escrava, cresce no pelourinho da rotina, com os açoites ardentes do capitão-do-mato (patrão), trabalha no eito do escritório, com algozes como companheiros de lida, e morre no anonimato da nulidade. Somos escravos e não teremos, ao que parece, uma princesa Isabel que arrebente nossas correntes, restituindo-nos ao colo da mãe África, à África da liberdade. Tudo é um interminável aturar, suportar, soluçar, afligir e angustiar. E o horizonte longínquo não insinua expectativa de melhora. Entramos numa fase sem opção de retorno, que nos dá como lenitivo a esperança de estar próxima de tocar o limite do suportável. Quando ultrapassá-lo, veremos finalmente as seculares bestas bíblicas.

É difícil ter outra opinião diante dos fatos. Lá vai mais um trabalhador braçal carregar tijolos, areia e cimento. O seu dia será de novo a renovação de um suplício que se suspendeu no dia anterior, que, por sua vez, é continuidade de outro e de outro. Caminha pela ruela estreita e suja quase sem consciência de si, sem nenhuma do trabalho. É um alienado! Pergunte a ele sobre os componentes da argamassa. Indague-o da poluição necessária para cozer aqueles tijolos. Estimule-o a tecer considerações acerca dos ângulos da casa e os cálculos de sua arquitetura arrojada. Melhor, não pergunte nada! Ele os desconhece... O que interessa ao empregador é tão-somente a força dos seus músculos, a agilidade com que carrega vigas e carriolas, o resignar eqüino em sua condição, e o trabalhador o satisfaz. Para que fatigá-lo com a atividade extra de pensar? Mal consegue somar, mal é entendido no mistério das palavras escritas.

Deixe-o como está, saia da frente, com este ar presunçoso de professor universitário. Parece não ver que já está atrasado, que as pernas do pobre diabo obedecem a estímulos mecânicos, vindos de uma cabeça instruída a sempre repetir comandos programados. Neste suadouro sem trégua, neste labutar desumano, deixe-o empunhar a pá e brandir o martelo, mas também deixe-o, ao mesmo tempo, pensar na falsa maciez do travesseiro e nas promessas de maravilhas do leito conjugal - poucos consolos de uma vida áspera. Maravilhas que darão origem a outros trabalhadorzinhos, igualmente fadados a este destino escravo - engrenagens novas para substituir as gastas.

Ah! Paro por aqui. Desisto de convidá-lo para acompanhar-me mais nesta incursão pelo inferno. Pouparei o leitor de ver de perto a rotina daquele executivo e daquela funcionária pública. São muito lúgubres, e hoje me faltam tintas grossas para impregnar a tela com a melancólica vidinha deles. Recuso-me a dizer que são escravos ao quadrado, que os mais conscientes dos grilhões da escravidão padecem de uma tristeza imperscrutável, superficialmente disfarçada, muito superior à do pedreiro. Depois eu digo, estou sem inspiração. O próprio escrever está virando para mim ato mecânico. Tomara que seja temporário engano. Se converter-se também em aborrecimento, suspirarei pelo chicote.

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25 março, 2006

Confusão ofensiva

Tenho visto confusão forçada acerca do proprietário deste blog. Muitos estão atribuindo a sua autoria a um certo Libertário, que mantém um esgoto digital na Internet. Posso desculpar, sem rancor, que venham aqui, leiam, apreciem e saiam em silêncio, deixando suspensa a opinião sobre os posts. Embora pouco educado – pois ofereço a oportunidade de limpar a língua com a demonstração rara do cinzelar verbal-, é conduta comum entre os internautas analfabetos. Seria exigência em demasia esperar um comentário articulado de incipientes no bê-á-bá. Mas se embaraçar tanto a ponto de confundir na mesma ignorância a água e o vinho é demais, é muito forte para mim - só pode ser evidência inabalável de estupidez. Se houvesse tribunal onde se buscasse provar a existência de ignaros, de obtusidades córneas, eu teria sólidos elementos para condenar vários à prisão perpétua.

Pelo que sei, o Libertário não é nenhum Fernando Pessoa. Não tem múltiplas personalidades literárias. A façanha de variar totalmente de estilo, quando bem lhe apetece, é habilidade desconhecida por sua mirrada caixa de recursos. Alberto Caieiro e Bernardo Soares jamais moraram dentro dele. Então por que andam afirmando o oposto? Se colocarmos nossos posts lado a lado, veremos quão estupidamente se enganam os crentes na versatilidade verbal daquele blogueiro. Um vasculhar atento em seu arquivo de pseudotextos dará a confirmação disso. O que salta dali pode ser tachado de tudo, exceto de parente de minhas entranhas criativas. Uma frase minha vale por dez parágrafos dele. Uma rajada de minha crítica deixa em frangalhos seus posts ardorosamente paridos. O conjunto de meus poucos textos, que me tomou alguns minutos, equivale aos três anos de atualização nefasta de suas depravações e idiotias.

Esta defesa veemente poderia cair por terra se fosse apenas exercício de redação. Se fosse trivial aquecimento de dedos, sem base em que se estender. Os leitores mais argutos logo notariam a farsa, e eu veria sabotada a credibilidade de blogueiro profissional. “Se fosse”. O Libertário, até onde me faço saber, em seu exíguo poder de expressão, só consegue publicar espasmos de textos, farrapos de idéias. Estas podem ser boas, mas carecem de um exprimir-se consistente, de um lapidar preciso, de uma escolha justa das palavras, de um afastar tempestivo da trivialidade com que torna públicos os pensamentos.

Quero dizer com isso que sou insuperável? Bem, sou muito acanhado para responder. Deixo a cargo do leitor plenamente alfabetizado a resposta a esta pergunta. Só determino que renunciem à confusão de autores e textos. Eu sou eu. Ele é ele. Simples e claro.

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18 março, 2006

Estou lendo...

Acatando centenas de pedidos, hoje vou estrear, no lado do blog diametralmente oposto ao esquerdo, os livros que estão sendo lidos pelo blogueiro aqui. Vou fazê-lo e peço que não me calunie com vileza ao concluir pela minha índole de plagiador. Plagiar pressupõe copiar na íntegra ou em parte produtos de mentes fecundas ou levianas. E o que farei será um mero empréstimo, visando à utilização de recurso vulgar que permita aos meus fãs entender o enigma de minha genialidade. Conhecendo a fonte de meu saber ou por onde peregrino para tanger a perfeição, poderão ao menos tentar imitar o mestre e quiçá um dia me trepar nos calcanhares.

Queria tornar pública a lista completa das obras que já li esse ano, mas a nefanda modéstia e o reduzido espaço me impedem de constrangê-los a isso. Por mais que eu queira divulgar, o rol de livros ficaria entalado e seria empecilho à ligeireza do blog. E, depois da mofa, nada estimo mais que a ligeireza - seja da Internet, da franqueza ou da verdade.

Antecipo-me aos espíritos vadios e miúdos. É claro que mencionarei somente aquilo que estou apreciando. O ambiente do qual agora faço parte não me corrompeu tanto o caráter a ponto de inventar leituras. Ergui em volta de mim o muro blindado da moral ilibada e não será sem luta a violação do local sagrado, onde a mentira sofreu pena de desterro. Sei (como sei!) que muitos, para se dar falso ar de intelectual, compensam a pobreza do estilo no esticar obstinado de listas patéticas, que instauram um contraste patente entre o ser e o querer. Sendo incapazes de notar o flagrante em movimento, não advinham que qualquer entendedor de letra redonda os chasqueia em silêncio por serem tão ingênuos.

Em vez de se entreterem vãmente nesse buscar infatigável de títulos e autores, com que o Google, também pai dos burros, os presenteia com fartura, estariam melhor se os tivessem lendo mesmo, colhendo em suas estranhas o material que daria um pouco de robustez ao seu escrevinhar, tão ensopado do manusear imperito de iniciante.

Se uma vez sequer pudessem demonstrar que me besunto de engano e publicassem algo com elaboração, sem deixar expostos os andaimes do edifício, retiraria de imediato todas estas palavras fustigantes e pediria chorosamente desculpas, suplicando pela minha vida. Dêem-me o resultado de seu esforço e eu lhes retribuo com um texto de arrependimento, trocando a foto do Coringa, ali ao canto, pela dum asno. Mas me dêem! O que me ouriça a irritação é ver acéfalos escrevendo textos aleijados de tudo e, malgrado isso, fazerem-se de exímios escritores pela exposição do suposto solo em que se fertilizaram.

Mas voltemos aos livros em fase de apreciação – na realidade. Agora estou lendo três. Veja, não que os esteja lendo ao mesmo instante. Precisaria de três cérebros para tanto. Primeiro leio várias páginas de um, depois leio outras do seguinte e finalmente do último. Pela manhã, à tarde e à noite. Se tempo me resta, saboreio revistas científicas. Os jornais rareiam em minha escrivaninha. Esta explicação é importante para prevenir-me contra objeções idiotas, que se aproveitam do menor descuido daquele que se esquece de oferecer tudo mastigadinho, pronto para o trabalhar do estômago. Sem mais rodeios, vão abaixo os atuais bálsamos da minha alma.


- Caracteres, de La Bruyère
- Banquete, de Dante Alighieri
- O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco

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16 março, 2006

Assuntos irritantes

Tenho observado um fato curioso. As pessoas que não têm o hábito de leitura se irritam mudamente com conversas que discorram sobre o livro ou a ação de ler. Parecem achar uma babaquice extravagante o “desperdiçar” de horas num ato que, à primeira vista, é de nula vantagem prática. Horrorizam-se por dentro se falamos com entusiasmo das peripécias de certo personagem ou do epílogo emocionante de narrativa recém apreciada. Torcem o nariz e franzem a testa, em demonstração de profundo desdém, perante qualquer manifestação de carinho pela atividade que deveria ser meramente corriqueira, tão ordinária quanto ver televisão. É claro que eu não as culpo por agirem assim. Os culpados são bastante conhecidos, e seria fastidioso insistir na lista e escancarar as obrigações. Ninguém as ignora. E política é assunto que me escapa das prioridades de reflexão. Cuidemos do fenômeno em si, sem considerar as relações mantidas.

Menoscabar a leitura não é crime previsto no Código Penal. Queiramos que assim continue. A Brasil viraria um deserto imenso e sem graça se os legisladores resolvessem variar a rotina ociosa através de lei que trancafiasse os ignaros. O Saara teria uma réplica em Brasília. Haveria um Atacama em cada Câmara Municipal. Pode-se depreciar a leitura, mas idêntico desdém com a paciência alheia é intolerável, é inconcebível. Ouvir resignado assuntos irritantemente vulgares, que passam por toda sorte de ninharia, é exigir de mim desgastante esforço, suplício inconciliável com a gratificação, que é porcaria nenhuma. Quantas vezes, meu Deus, tive de me segurar na cadeira para não abafar os suspiradores das goelas de quem estava falando de enterro, onde o defunto começava a exalar odores fétidos. Diga-me, o que tenho eu a ver com isso? Conheci o infeliz, troquei palavras com ele em qualquer dia da minha existência? Então vá para o inferno e dê lembranças a Satã.

Mas já providenciei uma maneira de revidar as afrontas - e é simples. Usarei a tática guerrilheira de aborrecimento que eles praticam: persistência. Após eles relatarem quão agitado e animado foi o forró ou o arrasta-pé, com as cachaças entornadas e os beijos roubados de banguelas, inicio de novo minha luta santa pela conversão dos infiéis. Esmiuçarei, detalharei, repetirei pela enésima vez todos os pontos louváveis de se vergar sobre um livro, todas as benesses de estrear o cérebro, mesmo que de forma tardia. “Sim, a leitura nos aguça a imaginação e expande a consciência crítica. Quem busca adquirir pelo menos um vestígio de vida independente só encontrará um caminho de emancipação: nos livros”. Assim, faremos o prelúdio de uma guerra que só terá ocaso em estrangulamento ou fuga covarde.

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15 março, 2006

Elogio da Arrogância

A blogosfera era precocemente raquítica e decrépita até o instante glorioso, até o dia triunfal. Há muitos bytes se clamava por um blogueiro ungido de inspirações celestiais e perito na arte da palavra. Requeria-se que, com o tempo, ele preenchesse o vazio triste onde cloacas virtuais apenas sonhavam entrar, onde latrinas em formato de sites ambicionavam se infiltrar para corromper o solo sagrado, reservado ao iniciado. Pronto, já não se requer mais. Cá estou eu. Pode me aplaudir. Não seja avaro em reverência Chamei para mim a responsabilidade de fornecer por atacado qualidade e maestria e mereço, por isso, o reconhecimento descabelado de todos aqueles que têm o prazer de sorver o bálsamo da minha sapiência. Veja, vagabundeie pelo blog. A beleza e criatividade de meus textos são inenarráveis, indescritíveis. A impotência da palavra para expressar o sublime me prostra de fadiga quando tento tocá-lo.

Sei como ninguém o quanto será enfadonha a missão de injetar vigor onde hoje é modorra, de verter talento onde agora é amadorismo. Mas, como sou a reencarnação de algum escritor excepcional e bastante modesto, lhe ofenderia a memória se me portasse como mero observador e deixasse a plebe se definhar nas mãos dos despreparados. Sou tão hábil e sagaz que às vezes penso ser dotado de um gênio criador. Prodigalizo frases e parágrafos em jorros violentos de criatividade – nada me sai com dores parturientes. Os textos que dão viço e exuberância a este soberbo blog foram feitos de um jato. Escrevi-os enquanto comia macarronada, escutava música e folheava O Livro do Desassossego. Nenhum foi engendrado ao cabo de horas, mas de minutos.

Se a simultaneidade de ações e escassez de tempo pouco abismam, muito abismarei se disser que revelo apenas a décima parte de minha capacidade. E quem cultuar a vã esperança de que vou gastar, sem retorno algum, longos quinze minutos para dar vazão a todo meu potencial, esperançar-se-á até a cova. Sou bom, sou ótimo, sou incomparável - e também sou capitalista Ao lado das verdadeiras pérolas ainda por serem realizadas, estes rascunhos são execráveis imundícies. Imundícies excelentes – para me dar o prazer de um paradoxo. Poderia esmagar, esmigalhar alguém pelo destilar de uma curta e robusta frase. Por isso, pense bem antes de escarrar uma crítica negativa às imundícies arrebatadoras deste blog. Meus recursos de escrita são praticamente inesgotáveis. Posso estar tecendo fartos trechos de lirismo hedonista ou sorumbática melancolia e, numa guinada arrojada, me voltar furiosamente contra os escarros de ousados. Vá escarrar na vovozinha.

Se fosse poeta e ouvisse os sussurros das musas, fecundando-me o estro com palavras doces e francas, cinzelaria um soneto à grandiosidade de minhas futuras produções. E ele seria eternamente lido e citado como modelo de perfeição poética. Glória e louvor a mim!

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Em breve: Elogio da Modéstia.

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14 março, 2006

Considerações literárias

A Queda Dum Anjo me surpreendeu. Superou as parcas expectativas que tinha em relação ao seu conteúdo. Comparado com as obras-primas de Camilo Castelo Branco, como Amor de Perdição e Amor de Salvação, é ainda produto menor, mas nos deixa também extasiados, não só pela pujante veia cômica do autor, mas pelo notável poder verbal. Não é sem merecimento que ele figura entre os maiores autores da Língua Portuguesa. Junto com Eça e Pessoa, é o escritor português que mais prezo, pela engenharia sintática ímpar e pela imaginação vigorosa.

Eu o encontrei por acaso num sebo. Tive uma crise existencial ao ter que decidir entre ele e Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett. No fim levei os dois. A ingenuidade do protagonista, os debates eloqüentes na Câmara dos Deputados, os seus modos e vestimentas risíveis, incompatíveis com a civilização lisboeta, são uma pérola do humor. Por trás da comicidade do personagem, nota-se uma latente crítica aos costumes e vícios. Apesar de melodramático, Camilo não estava plenamente encarcerado na divagação romântica, na sua fuga da realidade. A leitura do romance irá confirmar. Se a estética de Byron e Musset lhe rege preponderantemente a pena, é para abandoná-la quando ele emboca a tuba irônica.

E já foi dito que a melhor maneira de endireitar as condutas está na caricatura, onde tudo é ampliado, esticado e virado do avesso, para evidenciar os defeitos e envergonhar os defeituosos. Em A Queda Dum Anjo, ela se faz presente de modo magistral. O orador pedante, comum a qualquer época e muito conhecido de nossa realidade, ali é pintado a traços grossos, provocando risos justamente por se entreter em longos e empolados monólogos, sem chegar a lugar algum. Se fossem retiradas as discussões entre os parlamentares, em que a retórica vazia é o mote, o romance se enfraqueceria e perderia o que faz dele imperdível, na minha opinião.

O leitor poderá estranhar a empolgação com que me expresso. Aconselho que se abstenha disso, nunca fui defensor de mesquinharias. Não sou procurador de um autor defunto. Vejo, assimilo, analiso e exponho. É simples. O que todos deveriam fazer. O nível da argumentação pode motivar reprimendas, mas a franqueza que a guia ficará preservada, se tenho o privilégio de ser lido por leitores justos.

Com certeza, Camilo os teve. A posteridade ecoou a grata satisfação de lê-lo e fala por mim neste texto, ainda que de maneira chã. Seria sacrilégio ter um blog e omitir egoisticamente esse achado literário, que merece horas de leitura de quem pretende conhecer o nosso idioma além das fronteiras da vulgaridade moderna. Desbravemos, pois, os clássicos da língua de Camões. Comecemos por Vieira, Machado ou Alencar. O quê? Não me venha o leitor me recordar do já sabido. Sei que a Literatura Brasileira está despojada de um Grande autor, com “g” maiúsculo mesmo. Ainda estamos sedentos de um Cervantes, um Goethe ou um Shakespeare.. Mas, se queremos que nasça e se desenvolva em terra tropical, devemos fazer a nossa parte.

Quanto mais gente ler a elite de nosso idioma, mais veremos aumentada a probabilidade de um “Memórias de Adriano” - que chega ao extremo de entoar o hino da perfeição. Que obra formidável! Quem passar por este vale de lágrimas só terá vivido e sentido completamente se ler essa façanha da arte. É meu livro predileto!

Leiamos, então, os nossos clássicos. Se virarmos as costas ao passado, as possibilidades da Língua Portuguesa jamais serão exploradas em sua plenitude.

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12 março, 2006

Equivocado

Estou frustrado. Estou desesperado. As observações dominicais me afirmam que estive totalmente equivocado com a minha competência em interpretação. Antes, pensava ser um exegeta razoável, com discernimento para distinguir o claro do escuro, o verdadeiro do falso, o dito do não dito. Agora vejo que sou mediano, quase pífio. Alguma arruela de meu córtex dever ter se desprendido ao resvalar os olhos em blogs daninhos – só pode ser. Ou então tenho escrito em idiomas extintos, impenetráveis em seu significado. Estas duas conclusões, embora duvidosas, vieram ao meu socorro quando vi certos disparates publicados na blogosfera. Percebi que, ao emitir opiniões, com todas as letras e palavras, listando fundamentos, expondo causas e efeitos, estou falando o diverso do que foi expresso.

Concedo que, em posts anteriores, lancei mão de ironia, mas foi sóbria, comedida, irrisória para obstruir o entendimento fácil da mensagem. A ironia, figura de linguagem abastada de efeito estilístico, tem dessas artimanhas: levam à dubiedade se o redator, com ela, incha os períodos – o que não foi o meu caso. Mas também se obscurecem se o leitor é um mentecapto intelectual. O blogueiro alvo de minha pena parece fazer jus a esta alcunha. Para ele, os dois posts de estréia deste site são elogios incontidos ao seu esmero de redação, são odes que selam de vez a maestria de seu talento, que o coloca no pináculo do mundo “bloguístico”.

Poxa, sou eu burro? É ele burro? Frente a essa obtusidade de raciocínio, me sobram dois alvitres: ou elimino os tropos e as metáforas dos futuros textos, para granjear o acesso livre a mentes inábeis, ou continuo da maneira como me agrada. Vamos, me fale, o que devo fazer para ser entendido? Renunciar à linguagem figurada está fora de questão. Prefiro extinguir o blog neste instante, aniquilando-o ainda no berço.

Desonestidade intelectual é isso: fazer-se de distraído, forçar uma análise, ser tendencioso no trato de textos alheios. Pena que tem vida curta.

Mas nem tudo são censuras neste espaço de humildes pontos de vista. As cutiladas da sinceridade sabem dar lugar a agradecimentos. Sim, o blogueiro fez um link para cá e espichou a audiência. Agradeço-lhe, portanto. A subida vertiginosa de visitas, que me deixou com náuseas pela rapidez, quase enguiçou o blog. Tive de fazer manutenção em sua fonte. Contudo, a sinceridade tem ínfima envergadura para mascarar-lhe a avareza. Os acessos indicam a curiosidade dos internautas por opiniões que destoam da comum propagada. Denunciam que estão desconfiados daquele blogueiro – já que lhes incuti o germe da suspeita – e que estão cansados de ser tapeados. Agradeço-lhe, portanto.

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08 março, 2006

Dia Internacional da Mulher

Pode me chamar de rigoroso com as coisas insignificantes, mas hoje acordei renitente em não abdicar de uma persuasão. Acho que consagrar um dia à mulher é desmerecê-la, é colocá-la numa escala inferior ao homem, por mais que essa idéia denote contra-senso. É como se todos concordassem sobre a sua suposta subordinação e tentassem amenizar essa desigualdade - seja por pena, seja por demagogia – mediante o ridículo óbolo de uma data. Para mim, tal pensamento atravessa-me a cabeça sem sacudir qualquer neurônio da dúvida. É um lampejo que projeta claridade sobre a penumbra ignara em que todos se apalpam. E o pior de tudo é o sexo homenageado se deixar levar pelo presumível reconhecimento auferido.

Ao destinar-se uma data às mulheres, se faz entender tacitamente – pelo menos a mim – que elas ocupam um lugar sem importância na sociedade, que o gênero oposto lhes concede esse agrado para embaçar a realidade crua, para dissimular a existência banal e apagada delas, meros receptáculos de espermas. Nem precisa me fuzilar com impropérios, sei da dureza destas palavras e o quanto podem magoar os temperamentos delicados. Mas só me reporto à impressão que me fica. Omiti-la seria agravar o silêncio alienante do engodo. E não estou aqui para ser instrumento de engano.

Engano aceito alegremente pelas mulheres. Um conhecido me fez saber que hoje, em seu local de trabalho, houve guloseimas e festejo, com participação entusiasta das interessadas, como devem ter ocorrido em todos os recintos de labuta existentes no universo. Veja o embotamento, note a parvoíce: as mulheres fizeram uma festa em louvor à sua “inferioridade” e saíram distribuindo abraços e “beijinhos” às companheiras de gênero. Se isso não é a evidência definitiva da idiotice humana, então convido o leitor a me iluminar os miolos com mais documentos. Acredito que aceitar e se orgulhar do dia intensifica a idéia de indenização dele. Compensamo-las por nunca poder chegar às “transcendências” espiritual e material que o homem, por ter saco escrotal, alcança.

Já identifiquei em um dos meus dois leitores uma contração fugidia da boca, delatando pensamentos sarcásticos. A ela respondo com um sonoro “não”. Não estou com inveja do sexo irresistível. Não quero uma data igual em relevo aos portadores de testosterona, para poupar os meus dedos de despedir frases condenatórios ao Dia Internacional da Mulher. Se alguém se lembrar de eleger um dia ao homem, desisto de vez da humanidade e me enfronho voluntariamente numa vala, orando ao deus da putrefação pelo eclodir de vermes danados. Como a minha fé em nós mesmos está amparada em frágeis escoras, receio que me atraso em comprar pá e reservar os metros quadrados de minha última morada.

Insisto. Paremos com essa patetice de comemorar a existência de quem quer que seja, muito menos se o foco do tributo somos nós, no arroubo pouco modesto de nos aplaudir - pois a mulher pertence ao gênero humano, ao contrário do que a data insinua. Há outros meios de tapar o largo buraco das desigualdades, e o que já foi atingido merece aplauso. No dia em que soluções pueris para problemas sérios provocarem os efeitos desejados, estarão extintos instantaneamente os grandes males que nos açoitam e envergonham. Sejamos mais astutos!

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05 março, 2006

Incoerência e mentiras

Ostentar listas de leitura é apenas reforçar a incoerência do Liberal - para usar um termo ameno. Aos olhos dos que têm cérebro na cabeça, em vez de torresmo, bastaram alguns frangalhos de textos e uma ligeira olhadela no blog para sentir-se invadido pela mais pura verdade: o blogueiro é um mentiroso, autor das maiores patranhas. Diria até que o Liberal possui a vocação da mentira. Vocação incompleta, já que só ludibria os lorpas incuráveis, os néscios que adoram ver coligidas lorotas e falsidades. E tudo exposto com um carinho minucioso. Como poderia nutrir outra opinião se ele conspira todo o tempo contra si mesmo?

O atualizador de pensamentos miúdos diz, por outras palavras, que as impressões das pessoas a seu respeito são desprezíveis, nem espetam ou corroem sua auto-estima, por isso, não vale a pena discutir, só ignorar as aleivosias do fundo de seu tabernáculo, onde ri às escancaras dos "idiotas" (palavra dele) que lhe enviam palavras gentis como estas. O obsessivo colecionador de insignificâncias afirma que dá de ombros aos seus detratores, sendo hermético a críticas, mas não percebe a contradição em que desaba ao mentir assim. Se ele desdenhasse com sinceridade, nem se importasse com opiniões de desconhecidos, aquela lista de leitura jamais chegaria à apreciação dos leitores. Leria e transformaria o fruto do empenho em posts substanciais. Convenhamos, alguém que fosse assim impassível teria a vaidade imatura, enrijecida na fase embrionária, dispensando-se do trabalho de chocar internautas bundões com as dezenas de livros supostamente lidos. Morando num país onde o povo não lê, é sem trauma que vejo os espantos diante de tão dedicada incursão pelo mundo das idéias. Por me expressar deste modo, darei a entender que estou fazendo uso de ironia - mas não é outra coisa.

Olha, Liberal, estou a par das suas pretensões literárias, até do livro de título muito infeliz que garatujou, apesar de estar privado da leitura (é que tempo me falta para as atividades tolas), então me julgo legítimo para alertá-lo. Se as centenas de livros que leu vorazmente entraram por um neurônio e saíram por outro, como o nível de seus textos sempre sugeriu, é sinal de algo errado. Ninguém, absolutamente ninguém, consegue descer tão baixo no medíocre se já travou contato com Eça, Machado, Camilo, ou outros escritores de igual ou maior envergadura literária. A elevação da qualidade é uma conseqüência fora de nosso controle, se temos algo no cachaço além do cabelo. O que ponho em dúvida é se houve de fato a leitura daqueles livros citados. Quanto à quantidade, julgo que é perfeitamente viável ler trinta livros em dois meses, contanto que se embrenhe num ritmo convulsivo e tenha uma ociosidade mais densa e prolongada que a vulgar massa. É o chamado ócio criativo, nas palavras de Domenico De Masi. Mas a prova cabal de sua conversa fiada está na forma e conteúdo dos posts que soterram o blog e deixam frágil o aço da paciência, a ponto de corrompê-lo de vez.

Por favor, não me acoime de internauta intransigente com um meio feito para deleitar paladares menos sofisticados, acostumados a digestões fáceis. Aposto que à imensa maioria nunca ocorreram tais suspeitas, que ditas, soam como obviedades. Estou apenas sendo sincero e piedoso, sem intenção de abalar perenemente a auto-estima do Liberal. Há uma aluvião de maneiras de aceitar, concordar, bajular e enganar, mas só uma de ser honesto: dizendo a verdade. Negar-lhe faria supor que ele não teria coragem de ouvi-la, e isso, a meu ver, é a suprema exprobação.

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Repúdio à mediocridade

Há três anos, a Internet se viu tomada por mais uma mácula inofensiva na aparência, outro blog cuja distinção - se é que podemos assim dizer – estava no apego apaixonado aos assuntos execráveis e subalternos. O único mérito do escrevinhador era ter a capacidade e ousadia de avançar sobre uma estrada cujo percurso faria ruborizar qualquer blogueiro que preza a dignidade e tem vestígios de amor-próprio. Fazendo uso de estratégias obscuras e questionáveis de divulgação, iludindo e enganando os desatentos, atraindo e seduzindo os perspicazes, manipulando os sistemas de busca, ele conseguiu emboscar vários incautos na teia de mesquinharias e boçalidades que se enroscam naquele ponto da web.

Entende-se que uma, duas, até três vezes, o internauta voltasse para confirmar aquilo que lhe deixou os olhos prenhes de estupefação. Para ele, sensibilidade virgem de porcarias tão bem concentradas, relacionadas com a exação de inventário, “era impossível haver tanta futilidade numa só cabeça, tanto lixo num só terreno baldio, teria se enganado”. Mas, uma vez confirmado, não havia necessidade de retorno, censuraria aquela página em seu PC e se empenharia em desestimular as personalidades inclinadas em chafurdar naquele estrume de pensamentos nauseabundos. Ora, para meu pasmo, esta projeção, que me parecia um truísmo, se desvaneceu sob o jorro contínuo de visitas que afluiu para o LLL, no ímpeto desesperado de beber mais e mais da fonte contaminada. As exaustivas auto-indagações sobre o fenômeno não me renderam nem mesmo um sopro débil de resposta vacilante.

Como, em sã consciência, alguém pode se deleitar com temas e abordagens condenados, hipoteticamente, à danação e ao desprezo antes mesmo de serem convertidos em palavras? Um desdém gelado seria a melhor resposta aos arremedos de escritor que encontram nas improvisações do ócio a matéria-prima de sua atualização, “para encher lingüiça”, no dizer do vulgacho. Ora, vá encher lingüiça no açougue, onde poderá se deparar também com a carniça, irmã siamesa daquilo que escreve.

O infame blogueiro maltrata e ofende os seus leitores, diz, palavra por palavra, que não lhes dá a menor importância e, apesar de disso, há um séqüito grandioso de visitantes que todos os dias volta e lê, sem assombro, o produto de sua indiferença. Esta seria deliciosa de se apreciar se fosse feita com habilidade e apuro formal, com técnica e ironia, demonstrando assim todo o conhecimento extraído das dezenas de livros que o Liberal diz ter lido. Até as ignomínias pedem certa elevação. Pode se ofender e desdenhar sim, em ultimo caso até se refestelar em assuntos menores, na extrema abjeção de temas aviltantes, mas há de ser feito com elegância estilística, há de se conceber engenhosamente o pensamento e depois vesti-lo. Ninguém anda pelado pelas ruas. O que se vê no LLL é uma erupção fastidiosa de coisa nenhuma, sem rigor nem qualidade. É um cortejo infindável de pés, ego e arrogância. A mediocridade não terá um leito de flores no regaço de minha alma.

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